Sara não se orgulhou do que fez. Mas foi preciso. As coisas tinham andado diferentes demais pra ela. Ela odiava mudanças. Morava num bairro de classe média baixa, um sobrado reformado e estiloso numa rua de casas geminadas e bons vizinhos. Era uma rua onde crianças e adolescentes ainda brincavam na rua nos anos vinte do século XXI. Ia em bares com as amigas nos fins de semana, pra beber. No fim da avenida tinha uma favela da qual ela desviava quando ia na feira ou para caminhar até o parque lateral. Via gente moradora de rua pedir comida às vezes. Sempre deixava em um armário comidas vencidas praquelas pessoas. Não tinha contato com drogados, tráfico, violência.
Só tinha sido assaltada uma vez na vida, longe de casa, saindo de um Shopping de noite por não ter conseguido chamar Uber. Via bêbados no bar próximo à ponte de casa, vivendo da pobreza da própria aposentadoria embriagada. Via cachorros de rua e deixava potes de comida na esquina. Sabia que sofrimento existia, se compadecia por ser boa. Não saía de casa sozinha e a pé depois das 21h, a menos que fosse pro bar, academia ou farmácia na avenida. Era viciada em vitaminas. Sentia que as motivava e pensava que outras pessoas não deveriam viver sem. Como viviam aqueles que pediam dinheiro a ela? Decidiu dar um pote de vitaminas pra uma moça, um dia. Ela só resmungou e disse que venderia.
Era uma mulher de quarenta anos que morava com a mãe idosa. Solteira, nunca tinha namorado. Sonhava secretamente em seduzir o homem grisalho e barbudo da primeira casa da rua. Ele era casado, tinha cara de carrancudo e era carteiro. Entregava suas cartas sempre com um sorriso de quem lia seus desejos profundos, como se soubesse que ela sonhava não tão secretamente com ele, um moreno velho e bravo. Ia buscar as cartas de regata. Poucas vezes tinha coragem de mostrar os ombros e ficar sem sutiã quanto às buscas das cartas. Repreendia a mãe quando ela era meio racista. Cultivava flores nas sacadas. Só abria a veneziana de madeira cinza apenas pra isso. Sua casa rosada parecia de boneca. A sua casa da rua e a sua casa interior. Sua mãe a chamava de olhos de águia, porque tudo via, tudo tratava com seriedade, tudo resolvia, tudo enxergava, com horizontalidade, “planitude”. Tinha olhar retangular, olhos cor de amendoim como uma águia americana. Seu nariz adunco e o cabelo escuro na pele alva ajudavam na imagem.
— Dá pra denunciar mendigo? — A mãe perguntou um dia vendo moradores de rua presos depois de assaltar um daqueles mercadinhos de nome estranho que funcionam 24h no centro.
— Não sei.
— Você nunca presta atenção no que eu falo, só fica olhando a rua, só fica no celular. Puta que pariu, tá na minha casa, tem que falar comigo.
— Só quis dizer que não sei se é crime morador de rua ficar numa rua dormindo, mãe. Ou então tacar fogo nas coisas, pedir comida. — Sara quis xingar ela, mas todas as vezes que era xingada, engolia. Terminava as frases com mãe, como uma maneira amenizadora de elocução.
— Eles são nojentos e me dão medo, podem acabar pegando você.
— Não vai acontecer nada, a rua é cheia de câmeras nos portões, mãe.
Quando viu a prefeitura fazendo obras na esquina da rua, onde era apenas um terreno com mato, se desesperou. Sabia que tinha um cara que tocava fogo nas coisas em pracinhas pelo bairro, um porco sem casa e tinha medo dele ir para lá. Mas logo se alegrou quando soube que uma pracinha de convivência seria inaugurada. Faria bem pro bairro, pros senhores que faziam caminhada, até pro nojento com chapéu que mexia com ela quando ela era criança. E hoje mexe com as outras crianças. Não importava. Ela era adulta, ia na inauguração da pracinha olhar os aparelhos de ginástica e as mesas com tabuleiros de xadrez. Esperava em breve mais projetos públicos para onde morava, já que tinha votado em um governo moderado. Quando a pracinha inaugurou, ela mesmo usou os aparelhos e cumprimentou Dalva, a senhorinha cabeleireira, Josi, que recebia suas encomendas e Morivaldo, pedreiro que tinha uma moto barulhenta e fazia gatos na rua para ajudar os moradores com as contas. Tudo era perfeito, habitual todos os dias.
Dois meses depois os aparelhos estavam desmontados. Eram ossos cinzas esquecidos. A pracinha era um deserto onde as pedras eram lixos largados. Fralda. Tampinha. Bolsas velhas. Cadernos rasgados. Sabia que tinha relação com os moleques nóias que passavam a noite fumando baseado ali. De noite, ela abria levemente uma das venezianas para sentir o cheiro.
Sua mãe aproveitava pra ser a mais racista possível, dizendo que só preto estragava as coisas tão rápido e que eles estavam vindo aos montes morar no fim da avenida, beber no bar, estudar na escola do bairro que já não tinha crianças suficientes. As pessoas que vinham pedir comida não tinham dentes, falavam enrolado, isso quando não seguravam a droga na mão, com os dedos escuros e feridas na pele. Eram drogados. Um (agora) morava no ponto de ônibus onde às vezes ela pegava para passear, já que o carro em nome da mãe era velho e exigia cuidados muito mimizentos, além do olhar de água desmemoriada da mãe. Outro passou a morar debaixo de uma oficina de carro, tirava suas coisas sempre que era dia, mas estava lá com seu colchão e lençóis rosa sempre que estava frio. Aquilo a fazia estremecer. Tinha medo que alguém fizesse algo com ela. Vivia arrepiada, entrava na própria rua sem se sentir em casa, olhando para trás como quem era vigiada, perseguida.
Sabia que não era coisa da cabeça dela porque os vizinhos tinham colocado placas e câmeras de segurança. Um deles trocou o portão. Outro estava morando debaixo da ponte, tinha cadeira, sofá, varal e até lenha pra fazer fogueira todas as noites que esfriava. No inverno os pneus eram queimados diariamente. Funcionárias de uma loja caseira de impressão e brindes foram ameaçadas por drogados. As crianças pararam de brincar na rua até tarde. Morivaldo foi assaltado na esquina, levaram sua moto. Quem o ajudou foi o barbudo que ela não sabia o nome. Tinha pensado em tantos nomes pra ele, mas nenhum se encaixava bem. Ela queria que encaixasse bem. Sentia as pernas trêmulas duplamente ao saber do caso. Quando ele passeava com o cachorro, saia pra caminhar com a legging apertada, só dando voltas nas duas ruas acima. Quando era a esposa, dava um olhar azedo e o sorriso amarelo.
As notícias diziam que o Prefeito estava fazendo o crime diminuir e ler isso a fazia dormir um pouquinho mais tranquila. O centro da cidade estava limpo de viciados, seria vendido para iniciativa privada em breve e reformado como centro cultural. Era um projeto de bem estar público, como o da pracinha. Ela saberia que, com o tempo, seria bem preservado se mantivessem essas pessoas longe, depravados e maloqueiros que estragam as coisas dadas — dadas não, paga com os impostos suados! — ao povo. A outra opção era que tudo fosse destruído como estava fazia mais de 50 anos. Nunca viu o centro da cidade se não de carro, rapidamente, para ir em museus, bares, restaurantes, cinemas e orquestras. Gostava de ouvir tributos aos artistas. Saía de lá transformada, como se essas pessoas recebessem esses tributos sonoros que vão subindo pelo ar como poros, até os céus. Fazia cursos. Em um deles foi dito que os gregos queimavam carne em uma pira, para deixar os ossos para os deuses. Esses tributos eram isso para ela.
Mas algo ainda estava fora da normalidade. O bonitão entregava as cartas cada vez mais carrancudo. Ela desejava que fosse algo com a mulher dele, que o casamento estivesse ruindo como estava o seu dia a dia no bairro. Os cachorros de rua vinham acompanhados de alguém que também procurava sua ração. Ela não tinha comida pra eles. Comprava ração de vez em quando pra deixar na pracinha, antes. Mas agora, nem isso. Se decidiram ser adotados, que pedissem comida aos viciados que os davam carinho. Além disso, a pracinha estava ocupada. Morava um casal que fazia sexo no colchão, no chão, atrás da palmeira e até nos equipamentos. Sara sabia porque ouvia, porque ouviu falar, porque viu, um dia voltando da sua compra de vitamina C. Viu correndo, com medo de ser pega pra participar da sujidade que via. A mulher gemia de dor. Ele era magro, mirrado, com as pernas como as de galinha. Ela é imensa. O boato era que tinha abandonado a família para viver com ele, já que ele não abandonava o vício.
Um dia decidiu arriscar, perguntou ao barbudo:
— O que foi que você anda tão bravo?
— É a minha cara mesmo. Mas ultimamente está impossível com esse bando de gente esquisita por aqui. Tome cuidado ao andar na rua.
— Mexeram com você?
— Comigo não, olha meu tamanho. — ele riu, os olhos cinzas como a barba a encarando — mas está difícil até ir comprar Coca-Cola, e eu sou viciado, sem ser abordado por eles. Esses dias trabalhei que nem um filho da puta, comprei seis Cocas e umas gramas de mortadela pra comer com pão e um filho da puta veio me seguindo chamando “ô tio, dá uma coca pra eu?”, você acredita?
— Caramba, mas é muito descaramento. Eu até parei de ir na pracinha depois do desmonte.
— Deixaram a pracinha peladinha.
— Deixaram mesmo, não dá mais pra passar em frente sem sentir nojo.
— E aqueles dois drogados que ficam ali me irritam, já fui lá brigar com eles, porque é muito perto da minha casa, pô.
— Nossa é mesmo, deve atrapalhar você e sua mulher.
— Minha mulher tá viajando, viaja muito pra ficar no sítio, mas realmente, é difícil até dormir com tanta gemeção.
— É a nova realidade.
— Não deveria ser. Vou indo que ainda tem que passar pra pegar umas caixas e levar lá no fim do bairro. Lá não dá pra ir a pé porque é cheio de lixo e buraco. Tá abandonado também.
— Tudo bem, bom trabalho!
— Obrigado, Sara.
Quando entrou a mãe dormia. Foi pro banho, tirou a roupa. Ficou pe-la-di-nha. Como a pracinha. Esfregou os dedos na sua própria penugem até gemer baixinho, simulando a gemeção que não o faria dormir.
A partir daquilo, ela passou a fazer pequenas compras e os dois conversavam de vez em quando. Ele perguntava de sua mãe, que teve uma época que ficou de cama, reclamava da mulher que trabalhava muito e que fez ele abrir uma academia num dos quartos da casa porque eles não usavam (não tinham filhos) e ela tinha medo de ir nas da avenida agora, reclamava dos nóias, dizia que os cachorros resgatados da rua eram seu grande amor, riu quando descobriu que seu apelido era olhos de águia e disse que combinava porque seus olhos eram de mulher “braba”. Tinha a pele vermelha de ficar debaixo do Sol entregando cartas, braços enormes tatuados e uma aliança dourada que o faziam reluzir. Era brilhante enquanto ela pálida, como quem era anêmica, apesar de tomar vitaminas.
Foi comprar algumas coisas pra um próximo passo, premeditado, quando, passando na frente do bar, um bêbado gritou:
— Eu amo beber! Eu bebo sim!
Quando ela o encarou feio, no fundo dos olhos, passando rapidamente com as compras, ele bateu os dedos no peito do amigo e disse:
— Morena seca.
Ela ficou ofendida. Sabia que sua bunda era redonda, macia e grande, dado aos agachamentos que fazia e aos toques nela no banho que permitiam conhecer seu corpo. Sabia que tinha peitos triangulares, salientes e separados. Tinha uma cintura um pouco quadrada. Mas quando continuou andando, reconheceu que ele falava sobre seu olhar de amendoim cru. O outro respondeu:
— Essa mata, ihá!
O forró aumentou, uma sofrência com ritmo repetitivo em teclado, junto do som da sinuca. Ela continuou indo, passando pela ponte feia. Guardou tudo, colocou a Coca—Cola pra gelar. Sua mãe já dormia. Tinha pedido pro barbudo entregar as coisas dela de noite, porque ela não estaria em casa de manhã. Quando ele chegou, dizendo que aproveitou que era na rua pro fim do expediente, ela estava de regata branca, sem sutiã, os peitos triangulares com bicos escuros marcando e uma calça legging branca, sem calcinha e descalça.
— Quer entrar e tomar uma Coca-Cola?
— Ah, vou aceitar, ainda não tive tempo de passar no mercado.
Ele entrou, tímido, ela pediu pra ele se sentar. Só algumas luzes estavam acesas, a da cozinha e a da sala, amarelas.
— Engraçado, você é meu vizinho e eu meio que não sei seu nome. Sempre fiquei com vergonha de perguntar.
— Ah, caramba! É Guilherme. Não combina comigo, que já tô velho.
— Imagina, combina sim. Devem te chamar de Gui, né? — ela sorriu servindo a coca cola trincando no copo pra ele e depois serviu pra ela.
— é mesmo. Obrigado, nossa, eu sou viciado nisso. Eu só sabia o seu porque entrego muita coisa aqui. Vocês compram bastante. — ele deu um gole como quem bebia matéria escura, como quem sacia a sede dos níveis do inferno de Dante. Como quem bebia tudo sem nunca deixar de estar com sede. Não sabia como cabia tanto gole na mesma boca.
Ela derrubou a coca cola em si mesma e no chão e quando ele notou, ela já dizia pra ele não se preocupar.
— Vou limpar isso. — levantou do sofá e arrancou a regata, exigindo muito despudor de si mesma. Quis fechar os olhos pra não ver o rosto de choque ou nojo dele. Depois tirou a legging, já transparente, amarronzada, com sua penugem rala despontando. Achou que ele ia levantar e ir embora.
Mas em silêncio, levemente boquiaberto e respirando pesado, ele a puxou pra perto do sofá, primeiro lambendo os peitos dela. Ela achou que iria explodir ali mesmo. Ele sugava como se fosse tirar toda a coca cola do mundo dali. Enquanto isso, a mão de Sara passava pelos cabelos grisalhos dele, arranhando as costas com a blusa amarela e azul. Ele a dedilhou como se toca um teclado no forró, esfregando pra lá e pra cá partes dela que ela não conhecia.
Quando deu por si, seus olhos de águia estavam embriagados num pêndulo, se fechavam contra sua vontade pra lacrimejar e abriam o máximo que ela conseguia pra enxergar o panorama de toda a situação. Não conseguia ver o todo por baixo dele. Mas no chão sujo de coca cola, ele com suas pernas grossas e tatuadas metia incansávelmente nela, a peladinha. E ela dava conta do resto, segurar a estrutura de tudo, aquilo que ela gostaria que se tornasse um hábito, a gemeção. Como era gostoso ser preenchida por aquela encomenda. Como tudo poderia ser assim sempre, sem mudanças. Quando finalmente terminou e derreteu em cima dela, ela já havia derretido diversas vezes, sem saber que era possível. Não sabia se era só com ela, mas aguentou várias vezes, ficava mole no corpo, a área dolorida, sensível, mas queria mais, mais.
— Meu Deus. Eu até gozei em você. — ele respirava ofegante, piscando algumas vezes como quem foge do teto preto, deitado ao lado dela, próximos a mesinha de centro, ambos peladinhos.
— Eu vou ficar..?
— Não posso ter filhos. — ele a cortou bruscamente.— Eita. Tem um pouco de sangue em mim. Meu deus, eu te machuquei? — ele levantou o rosto e colocou a mão quente na cintura quadrada dela. Ela se sentiu estranhamente em casa. A sua casa rosada.
— Não, é que, bem...foi a primeira vez que fiz isso.
— Tá brincando? Meu deus eu tirei seu... Nossa, desculpa.
— Sim, não pede desculpas. Era o que eu queria.
— você queria? Há quanto tempo decidiu isso? Isso foi, isso foi planejado?
— Um pouco sim. Te desejo faz um tempo, Guilherme.
— Eu não deveria ter feito isso, eu sou casado. Eu nunca tinha feito isso. Eu juro.
— Tudo bem, não preciso ser a única pra você.
— Mas Sara você é minha vizinha, tem sua mãe, se as pessoas da rua descobrem...
Ela calou ele com o beijo. Esperou vir enquanto ele a preenchia, mas só beijou o suor dele que pingava contra a cara dela. Relutante, sua língua áspera foi amolecendo, o gosto salgado e o retro gosto de coca, viciante. Os dois continuarem peladinhos mais um tempo, se bebendo. Ele já tinha feito tudo, só tinha faltado isso.
Quando ele se foi, o acordo tácito entre eles estava silenciosamente estabelecido. O que ela não previu foi o cheiro de pneu queimado deixando uma fumaça pela garagem e quintal a noite toda, acordando sua mãe. Ela não tinha sentido o cheiro. A mãe ouviu ela e Guilherme e brigou muito com ela, aproveitando o ensejo para ser mais preconceituosa ainda.
— Você é mulher de família, arranje alguém solteiro e se case logo antes que morra sozinha. E não faça mais esse tipo de coisa na minha, MINHA casa!
— Eu gosto dele, mãe.
— Não gosta nada! Esse cheiro insuportável nessa casa, alguém tem que denunciar esse mendigo nojento catador de papelão! São todos bandidos! Bandidos! O prefeito está mandando eles pra cá, eu vi, eu vi no jornal!
— Volta pra cama, mãe.
— você não manda em mim! Nunca foi mãe, não sabe como é.
— Tá tarde, calma…Mãe.
— Uma hora esses caras vão invadir nossa casa, não tem homem pra nos defender e você é uma tonta! Vamos morrer por conta desses pretos!
— cala a boca, pelo amor de Deus, mãe…
— Esses viciados foram mandados em vans pra cá, tão destruindo nosso bairro, eu cresci nessa merda! E você não me manda calar a boca, sua vagabunda, amante!
— Fala baixo, os vizinhos vão ouvir, as casas são geminadas!
— Eu falo o que eu quiser na minha casa, minha casa Sara, ouviu? Eu não te criei pra ser amante de preto não.
— Mãe, ele é moreno. Mo-re-no.
— Da na mesma, cafuso, mulato, moreno, preto, negro, piche, são todos cracudos que não trabalham e tão impestiando minhas coisas, minhas coisas! Sujando, estragando!
— Mãe é só abrir as janelas e ligar os ventiladores, vai sair o cheiro.
— Você também não gosta deles tá me tratando assim porque trepou, vagabunda.
— Pelo amor de deus, velha do caralho! Mãe! — ela gritou enquanto empurrou a mãe de volta na cama. O clássico. Ela bateu a cabeça na beirada de madeira velha e caiu de lado. Estava com a cabeça ficando roxa muito rápido. Sara olhou pro quarto todo, antes de gritar ou chorar, pensando no que fazer. Precisava agir rápido. Fazer uma ligação.
Seis dias depois, Guilherme ia à casa dela, entregando condolências, às cartas, o jornal. Sara pendulava entre tremer e chorar e o abraçar e beijar. Passava a mão por ele. Estava guardando as coisas dela. Ele a acompanhou até o quarto com cheiro de idosa, perguntando se ela queria ajuda. Ela queria. Trepando violentamente com ele na cama da mãe. Os dois transavam de maneira romântica, onde o luto dela e a empatia dele se misturavam com confusão mental, prazer, Coca-Cola, agora sempre na geladeira dela. O ar estava limpo, as coisas voltariam ao normal, foi um erro, ia passar. Estava limpando a casa rosada.
Depois que ele caiu no sono, ela se sentou na penteadeira da mãe, pe-la-di-nha, o cabelo escuro desmantelado, o nariz adunco avermelhado como as bochechas, olhou o jornal no chão ao lado do copo de coca cola vazio. Encarou a si mesma no espelho. Olhos de águia não mais. Morena seca. Jogou o jornal pro lado e se deitou com o barbudo que a esperava pra cochilar.
Diário de Notícias:
Após denúncias recorrentes no SP 156, morador de rua que fazia fogueiras é preso. Todos os moradores do bairro foram denunciados pela discagem.
Morador de rua com nome ainda não identificado foi preso pelo assassinato de Maria de Fátima Ricco. Ela foi morta e jogada em uma fogueira debaixo da ponte do bairro Dália, na região metropolitana de São Paulo....
Foi tudo no mesmo bairro:
Eram cigarras
Ela ficou três dias sem tomar banho porque foi tempo que o chuveiro tinha estourado, calhando de bater com o retorno da sua depressão. Sempre que algo dava errado na casa era porque havia algo errado nela. E ela sabia disso porque se paralisava, arrumar algo na casa era arrumar algo em si, quando arrumava algo, outra coisa quebrava. Alguém, talvez ela, …
Cadeia Alimentar
Havia uma mosca na sopa. Ela caiu no caldo. Eu observando meu apetite se esvaindo da mesma forma que a vida se esvaia do inseto. Enquanto ela submergiu no líquido quente, envolta como um bebê em um líquido amniótico, suas perninhas finas foram tremelicando ao salgado fervor da morte lenta.






Conclusão perfeita! 🤌🏽 Gostei demais! ✍🏽
Não vi o final chegando…😳