Se o tal doutor pudesse dar um conselho a uma pessoa como eu, a quem designaria o título neurótico, seriam vários: o de não ler, não ouvir, não reparar conjuntos de vivências observadas de outros, objetos externos à cadência, na tentativa de compreender chorosamente alguma coisa por algum processo pelo qual não sou submetido.
Desenredando, o primeiro conselho seriam esses gerais, que abarcam os outros, como o de parar de derramar lágrimas salgadas por sistemas vivos, parar de acreditar em reorganizações, - já foi feito política e esteticamente! - pois isso falhará.
Pediria, não, aconselharia! Aconselharia que eu não olhasse de soslaio para mitos que não entendo, velha-sociedade pleonásmica que não pertenço daquilo que não creio, esses que nunca me interessei para saber se devemos retornar à. Sofia e José já o fizeram, grandiosamente sugeriram a tentativa, ela, não a Filo, mas a um Mithós-Sofia. Ele, não o bíblico, mas um marido devotado, amante pagão da Graça: a cadência da ausência.
O próximo conselho seria parar de dissociar sempre que está em silêncio, como se também essa ausência fosse uma cadência, (nota insuportável) ou quando se lembra de palavras degradadas e situações desgraçadas. Aqui a situação se estende em orações.
Quando eu me imbuísse desses conselhos dos olhares de uma sessão onde o objeto de observação sou eu, dissipariam-se os cenários, esses; onde sou uma, não todas, não a estrela, uma das pequenas pernas em formato adesivo de uma estrela do mar vermelha tentando fazê-la sair do lugar. “Se apressem!” Diria eu para as outras pernas, “não temos o dia todo” eu falaria ansiosa, querendo resgatar o precioso tempo perdido, dissociado, mandatório. Enquanto todas elas apenas se deslocam descolando da areia e cumprindo um devir coletivo, a sobrevivência de si através da luta dessa estrela caída no sal, que com muito esforço andará metros até que a água a leve.
Esse sal e areia que descola o tempo do meu tempo também embota a vista, a vista que vejo sou de um pequeno caranguejo, que tira com suas patas-búzios frontais qualquer véu de grão. Como quem liga o para-brisa do carro quando começa a pingar grosso, como quem tira os óculos no meio de uma conversa para limpar a mancha, para enxergar o caminho. Esse grão de segundo não atrapalha quem anda em lateral, quem anda metros, quem respira por dois orifícios abaixo da areia.
Esse doutor não daria conta dessa dissociação de espécie, onde em segundos sinto como se eu fosse enrolada num papel filme apenas em corpo e metade (a outra fica) da aura fossem pequenas bolinhas cinzentas juntas em milhões, flutuando para fora do papel filme, causando a sensação de mal estar tremendo, finalmente me dando espaço ao se formarem em outra coisa, fazendo a embriogênese desses tão parecidos conosco.
Enquanto ele, esse doutor, olhava papéis como eu também por muito do meu pouco vivido olhei…Não, enquanto todos olham ao alto desejando dissociar a um ser superior, a terem comprovado a existência de seres inferiores, enquanto não sabemos nada sobre os pequenos bioluminescentes não descobertos, enquanto fingimos ainda ter espaço para Dédalo, para Eros, para Éden, Paraíso, Musas e Monges, e mais! Enquanto fingimos que tudo que parte do incompreensível é distante, inexiste, que o que existe é o centro, que todo o resto do mundo é Ilha de Socotra, estando lá agora, já que lá é aqui, que não é o mundo perdido, que as flores do deserto em formato de dedos de gigantes adormecidos são o agora, enquanto falamos e nunca fazemos e olhamos e nos tornamos enquanto tudo, enquanto olharmos os papéis e retornos como método de resgate como esse doutor olha agora…
Estamos, estaremos congelados de maneira fatal, a posição inteiramente invulnerável, essa defendida de retornos, a Que Não Há Antes. Estaremos nessa Gênesis resguardada de enquantos, essa maneira de colocar o que se preserva como Único e assegurado, o melhor, que todos, todos eles, mestres fantasmas sentiam como certo. Essa posição que no retorno do retorno levará ao nada, a posição de um congelamento no tempo por melhor ser do que encarar vê-lo e se ver por outro corpo.
Daí não mais dará conta o doutor, encerrará a sessão, como quando encerrou quando descobriu o buraco que sangra, como quando soube que tem o quê nasça correndo, que se alimentam os fungos, que não se define agentes sem células, que não se tem consenso sobre razão, que o sujeito foi diluído, que os messias ideológicos se tornaram estilos de vida, que tem mais fases infantis não passadas em corpos não lidos como papéis, que se modificaram as instâncias inteiras por uma mesma doença, que palavras e ordens sintáticas-socráticas não dão conta, que as contas não fecham.
Quantas sessões são interrompidas por conselhos, quantas sensações perdidas por análises, quantos objetos mais que objetos de reflexão são-serão se sentidos…



